Clausura


SAUDADE

A saudade que eu sinto
Não é saudade da dor de chorar
Não é saudade da cor do passado
Que deixe grudado meu pé no chão
Não é a tristeza que queima o peito
Não é lamentar o que nunca foi feito
Não é a doença que acaba com a gente
Deixando esmagada a vida no chão

É a estranha saudade do que ainda não vivi
É a raça e o sangue de um simples moleque
Que leva na ponta da língua a todos os cantos
O sal e o doce da palma da mão

É a garra e a alegria de um simples menino que acredita nas pessoas e no futuro que seja fruto da força imensa de nossos corações.

Sinto falta do que ainda está por acontecer... Dos sorrisos que eu ainda vou ver... Das palavras proferidas pelo tom suave de sua voz que um dia me destinarão.

Eu sinto da falta da alegria que um dia ainda terei... Dos momentos que passaremos juntos e dos carinhos que hei de receber.

Sinto falta do futuro que está por vir e das rosas que ainda desabrocharão quando as suas mãos passarem por meus cabelos... Tenho saudade do perfume que ainda vou sentir e, principalmente, dos beijos que ainda hei de ganhar de ti.

Morro de saudade do amanhã que você me dará.



Escrito por João Marcelo às 15h27
[   ] [ envie esta mensagem ]




A traição

Fui traído. Duplamente traído.

Traído pela minha fraqueza. Quebrei a minha promessa, aquela em que eu me comprometia a não sentar mais em frente a uma tv e sofrer por um bando de marmanjos correndo atrás de uma bola.

Fui traído pelos marmanjos que não perceberam o quanto era importante que a bola ficasse do outro lado do campo.

Isso tudo é uma bobagem. Aquele bando de homens correndo atrás de uma bola. Por que não se compra uma bola prá cada um e se acaba com a confusão? Pronto. Vinte e duas bolas. Uma prá cada um e todos satisfeitos.

Bobagem é fazer de conta que a derrota não nos atinge. É como seu eu, particularmente, fosse derrotado e tentasse me esconder de todos para não ser cobrado pelo fracasso.

Cai a tormenta lá fora. Eu só quero que ela vá logo embora.



Escrito por João Marcelo às 00h42
[   ] [ envie esta mensagem ]




BOLA

Decepção. A promessa outrora feita com tanta convicção foi novamente quebrada. A traição a si próprio é a maior de todas.

Eu não ia vê-la novamente. Passei e encontrar defeitos em sua forma e mentia prá mim mesmo dizendo que ela é feia.

Ela não é feia. É linda.

Detenho-me por um momento apreciando-a e a paixão retorna com tanta força que me sinto como o alcoólatra que volta a beber de forma incontida.

Ponho a roupa dos apaixonados e mesmo sabendo que não deveria fazê-lo me dirijo ao seu encontro.

Estou sofrendo novamente e sei que nova promessa virá. Sei que, mais uma vez, direi que não devo encontrá-la e a promessa ainda será, repetidas vezes, quebrada.

Ela me fascina e adoro vê-la solta no ar buscando o abraço aconchegante das redes.

É copa do mundo, estou de verde e amarelo com as unhas roídas, sofrendo e torcendo pela seleção.

Meu coração pulsa temeroso diante da possibilidade de que o abraço da nossa rede seja o seu desejo, mas me mantenho esperançoso de que os pés mágicos do meu time lhe convença do contrário.



Escrito por João Marcelo às 11h57
[   ] [ envie esta mensagem ]




DISCO VOADOR

Tenho 10 anos e já fui abduzido.

Caminhava pela praia à tarde e via o bonito horizonte vermelho pelo sol que se punha. Acima do sol havia um dourado lindo, como se alguém estivesse derramando um caldeirão de ouro líquido do céu.

Fechei os olhos e me vi em outro planeta, cujos habitantes se pareciam com uma garrafa de coca cola. Isso porque tinham a base larga, os ombros muito estreitos e um sorriso encantador. Acima da cabeça havia uma pequena mão com uma estrela bem no meio. Essa estrela era uma espécie de olho que podia ver o interior das pessoas. Não o estomago, coração e essas coisas, mas a sua essência.

O pequeno planeta que fica em outra galáxia se chama Estrelandsol. Seus habitantes, os estrelandsolianos, têm muita pena de nós porque não temos a capacidade de ver como, de fato, as pessoas são. Eles nos consideram como cegos quanto à nossa capacidade de ver as pessoas.

Eles disseram que toda a pessoa guarda em si uma beleza imensa, mas eu precisaria de muito tempo para conhecer alguém e ver tal beleza.

Eu fiquei triste por não ter o olho estrela.

Como eles gostaram muito de mim, me ensinaram duas coisas. Foi como se eles estivessem agradecendo a forma cordial como eu os havia tratado. Eu não tive medo deles, pois afinal quem é que tem medo de uma garrafa de coca cola? Eles perceberam que eu senti isso, mas ficaram felizes por eu ter permanecido quieto, com receio de ofendê-los em razão da sua aparência. Aliás, acho que eles me acharam muito feio, o que é natural para quem se parece com uma garrafa.

Eles me ensinaram a me soltar no tempo.

Sim eu aprendi a me soltar no tempo. Eu posso agora voltar no tempo para os momentos em que eu mais apreciei na minha vida. Eu me soltei numa tarde, no primeiro dia em que fui à escola. Vi a minha professora. Como ela era grande e bonita! Fiquei feliz por ter voltado àquela tarde.

Eles me ensinaram que o mais importante de se perceber quando se solta no tempo é que o passado sempre vai existir, pois são momentos que passaram a pertencer à nossa existência e por isso marcam definitivamente a nossa vida.

Assim, as pessoas não morrem, não ficam tristes, mas apenas estão em um momento ruim, sendo sempre possível se soltar no tempo para estar com elas em um momento bom.

Isso foi o máximo!

Soltei-me no tempo e revivi os meus momentos mais felizes. Na escola, nas férias, na casa do meu avô.

Eu não estou mais com meus avós, mas sempre posso me soltar no tempo para ter de volta os momentos bons, aqueles em que os ouço brigando comigo porque eu fiz alguma coisa errada ou nos momentos em que provoco os seus sorrisos.

Quando retornei à terra não haviam sentido a minha falta porque não fiquei fora mais que poucos segundos para o tempo da terra.

Não me ensinaram a me soltar no futuro. Eles disseram que somente o passado é que pode ser visitado e que o futuro a gente ainda vai construir, mas se deve prestar muita atenção para que o futuro se torne um passado bom. Um momento bom em que se possa retornar para ser feliz.

Meus pais estão chegando e ficam loucos quando digo que fui abduzido. Eles não acreditam. Preciso parar de falar, mas o sorriso sempre me vem ao rosto quando eu penso que posso sempre voltar e ver alguém. Ouvir o som da sua risada.



Escrito por João Marcelo às 22h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Carta de Amor

Certa vez, no tabernáculo, os fariseus apresentavam as suas magníficas oferendas. Jesus e seus discípulos estavam dentro da igreja e podiam contemplar a dimensão do quanto esses escribas e fariseus doavam para o templo.

Ao chegar perto do local reservado para as ofertas, os serviçais dessas pessoas tocavam trombetas e anunciavam a quantidade e qualidade das doações oferecidas. Todos ficavam boquiabertos com tamanha generosidade. Eram contribuições enormes, sem precedentes e que significaram, em termos econômicos, algo verdadeiramente absurdo.

Buscando esquivar-se desse barulho todo e da atenção das pessoas, estava uma viúva muito pobre. Ela tentava esconder-se para que ninguém pudesse ver a dimensão da sua pobreza e simplicidade. Sobretudo, ela não queria que as pessoas vissem a singeleza de sua oferta, apenas duas moedinhas.

Então, em meio a todo aquele tumulto provocado pelos escribas e fariseus com as suas trombetas e anúncios de generosas ofertas, sorrateiramente, a viúva, absolutamente despercebida, depositou no local apropriado as suas duas moedinhas.

Daquele local se apressou em sair, buscando evitar a comparação, inevitável, entre a singeleza de sua oferta e a suntuosidade daquelas apresentadas pelos homens mais respeitados dentre o povo de Israel.

Ninguém viu a doação da pobre e miserável viúva, senão o Mestre.

O Mestre, até então tão caridoso, ousou contar aos seus discípulos a oferta da velhinha, o que lhes causou comoção já que nada significava diante daquilo que houvera sido doado pelos fariseus e escribas de Israel.

Antes, porém, que alguma conclusão fosse tomada pelos incautos discípulos, o Messias, aquele de nome Emanuel e que era tratado por Jesus, disse que dentre todas as oferendas a maior tinha sido dada pela pobre viúva.

Duas moedas era tudo o que a viúva possuía. Não poderia comer a partir daquele momento, já que sequer havia sobrado dinheiro suficiente para o pão do dia seguinte.

Todas as suas posses, todo o seu ser, todo o seu tesouro fora dado de coração ao templo. Os fariseus? A oferta deles era sem nenhum valor, já que haviam doado uma mínima parte daquilo que lhes sobejava, ou seja, quase nada.

E eu? O que posso eu dar para você?

Eu dou a você tudo o que sou, porque eu sou as minhas próprias emoções e estas foram todas vividas ao seu lado.

Não são as emoções que sobejam que lhe dedico, mas sim todas as emoções que possuo e, junto com elas, todo o meu ser.

Dou a você o meu pensamento e a minha razão. Não apenas as emoções e o amor que sinto por ti, desde o dia em que roubei o primeiro beijo. Dedico-te a razão, a convicção de que é a mulher mais extraordinária que um homem já poderia ter tido.

Infelizmente, dou-te o meu sofrimento, as minhas angústias e a parcela ruim que há em mim. Queria guardá-las e não dividir contigo algo que te levasse a dor, mas isso não me é possível, porque dentre as coisas que sou, dentre as minhas emoções, dentre o amor que nutro por ti, há uma parcela de sofrimento.

A vida é assim e nada posso fazer para evitar, mas te adianto que aceito receber de ti toda a tua dor, de modo que o fardo que tiver que carregar se torne mais leve quando posto também sobre os meus ombros.

Em mim sempre surge a certeza, a inexorável certeza do sentimento que ainda nos une. A necessidade que tenho de ti, das emoções que preciso ainda sentir ao seu lado e com isso me transformar em outro ser, cada dia mais parecido contigo e com as sensações que você me leva a sentir.

— Amo como o amor ama. 
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. 
Que queres que te diga mais que te amo, 
Se o que quero dizer-te é que te amo? 
Quando te falo, dói-me que respondas 
Ao que te digo e não ao meu amor. 
Ah! não perguntes nada; antes me fala 
De tal maneira, que, se eu fora surda, 
Te ouvisse todo com o coração. 

Lágrimas me correm os olhos neste momento, mas são lágrimas de certeza da eterna descoberta de que a minha vida passa pela sua.

 

João Marcelo

(final do inverno de 2005)

 



Escrito por João Marcelo às 12h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




HEMISFÉRIO

No norte
sou forte
não temo a morte
 
No sul
sou um
triste, romântico, azul
 
E no equador
vivo a calcular latitudes
 
(José Eduardo - Pepe)


Escrito por João Marcelo às 16h21
[   ] [ envie esta mensagem ]




Agnaldo Reginaldo

Talvez você não saiba, mas antigamente existia uma coisa… É uma coisa, porque eu não sei bem de que outra forma podia chamar aquilo.

É claro que havia um contexto histórico que explicava aquilo. Tudo bem que este contexto foi idealizado por Getúlio Vargas na década de 40, mas, enfim, estávamos na década de 90 e ainda havia a coisa. Os caras foram chamados primeiro de vogais e depois receberam, com a Constituição Federal de 1988, o status de Juízes Classistas.

Eu nasci bem depois da gênese desse fenômeno e não conseguia entender muito bem a utilidade daquilo, mas os livros explicavam que eles davam subsídio ao juiz de carreira para julgar os processos e promover acordos. A experiência deles seria o fundamento que justificaria a sua existência, já que o magistrado era carente dessa realidade que eles já haviam vivido.

Pois bem. Estávamos lá, eu o Kleber, fazendo uma audiência. Eu como advogado e o japonês como preposto (preposto é a pessoa que representa a empresa).

Fora a relação profissional, eu o Kleber, tínhamos muita amizade. Sabe aquela amizade de dois caras gozadores? Aqueles que estão se lixando para a amizade, desde que o resultado seja uma boa piada?

Até hoje eu me pergunto quem dos dois era o pior.

O fato é que eu mandava mais. Eu era o advogado e ele representava a empresa, além de ser meu estagiário, já que fazia faculdade de direito.

Ah! A audiência.

Pois é. Estava um verdadeiro saco. O advogado da outra parte estava quebrando o pau com o juiz. Briga de gente grande. E nós, que não tínhamos nada com isso, estávamos olhando para as paredes esperando aquilo acabar para que pudéssemos fazer a nossa parte.

Estava um saco porque aquilo não terminava. O bate boca parecia infindável, mas eu e o meu amigo estávamos atentos a tudo. Afinal, uma briguinha era sempre excitante.

No auge da briga eu vi uma coisa.

E quando a gente vê uma coisa perto de um amigo muito chegado... Tem que fingir que não viu, pois um pensa exatamente a mesma coisa que o outro e aí não consegue mais parar de rir.

Eu estava sentado ao lado dele e imediatamente dei as costas para o Jaspion (ele detestava esse apelido).

Eu segurava com toda força a risada... O pescoço estava grosso de tanta força que eu fazia...

O Kleber não podia notar nada, senão a coisa ia desandar...

De repente eu sinto um cutucão nas costas.

_Jãozinho?

_ Cala a boca Kleber.

_ Jãozinho?

_ Fica quieto. Audiência é uma coisa séria.

_Jãozinho? O seu Agnaldo Reginaldo (o Classista) babou na mesa.

Aquilo foi o fim. Não foi uma baba qualquer. Foi uma senhora babada, daquelas que o cara tenta puxar de volta, mas não consegue.

No meio da briga entre o juiz e o advogado adversário, o seu Agnaldo Reginaldo deu uma cochilada e babou na mesa. O pior é que ele acordou com o peso da baba e pôs a mão em cima para tentar esconder, mas tinha tanta saliva que ele ficou com nojo e começou a passar a mão no terno.

Nisso o juiz que estava falando, olhou para nós e deu uma piscada. Tipo assim: Agora eu peguei pesado, né?

Nós estávamos gargalhando.

A coisa perdeu o sentido... Eu xingava o Kleber e ameaçava bater nele em plena audiência se não parasse de rir. Aí é que ele ria mais e eu não me continha. O seu Agnaldo Reginaldo tentava limpar a mão no terno e o juiz feliz da vida porque achava que nós estávamos adorando a bronca que ele dava no advogado.

Resultado: Só eu e o Kleber percebemos a babada do seu Agnaldo Reginaldo e perdemos a amizade do advogado da parte contrária que achou que a gente ficou rindo dele enquanto tomava um esculacho do juiz.

Perdemos o amigo, mas fizemos piada daquilo por anos... 



Escrito por João Marcelo às 00h25
[   ] [ envie esta mensagem ]




O motorista de Madrid

Uma Mercedes, sei lá que modelo ou número, maravilhosa, prata, novíssima nos esperava no aeroporto de Madri.

Uns 60 anos, mais ou menos, era a idade que eu conseguia ver no rosto daquele homem que nos levaria ao hotel. Era o nosso motorista e que apressadamente tentava colocar as malas no bagageiro do carro. Eu percebendo a sua dificuldade procurei ajudar, mas fui impedido e recebi a determinação de esperar dentro do carro.

Pensei que talvez a minha ajuda pudesse ser vista como uma ofensa e não insisti. Ao entrar no carro comecei a pensar por quantos anos ele ainda trabalharia. Não que fosse um trabalho tão árduo, mas nem todo mundo costumava, como eu e a Simone, carregar pouca bagagem.

Eu estava impressionado com o envelhecimento da população de Portugal e Espanha. A quantidade de pessoas com mais de 60 anos ativas e no mercado de trabalho não é uma coisa muito comum pra mim. Ver garçons, taxistas, guias de turismo aparentando tal idade e normal e competentemente desempenhando o seu trabalho me fez pensar e ver que a vida certamente é muito mais produtiva do que eu podia imaginar.

Naquele exato momento eu fui invadido por uma prazerosa sensação de alegria e felicidade, pois tive a nítida impressão de que poderia produzir por muito mais tempo e de forma idêntica àqueles homens e mulheres do velho mundo.

Quando ele entrou no carro eu já estava totalmente tomado de simpatia por ele e, como uma espécie de retribuição, tentei com o meu espanhol arrastado e reticente, travar a conversa mais amigável possível.

Falamos da seca, a maior que ele tinha visto na Espanha (mais de 90 dias sem chover em Madrid), falamos de futebol, dos maravilhosos tenistas espanhóis (a famosa armada) até que eu toquei no assunto.

Comentei que em grandes cidades brasileiras não era possível caminhar à noite em razão da violência urbana que havia tomado proporções incontroláveis.

Calmamente aquele homem, o nosso motorista, me disse que eu não teria problemas com a violência urbana, apenas deveria tomar cuidado com punguistas no metrô, nada mais, além disso.

Foi a partir desse momento que eu me senti pequeno.

Ele passou a pronunciar um pequeno discurso sobre o direito fundamental de ir e vir. Todo homem, toda a pessoa tem o direito sagrado de poder andar a céu aberto, conversar com seus amigos na hora que bem entender. O desejo de liberdade, em realidade, é uma necessidade natural do ser humano e não é possível que aqueles que administram o Estado não possam permitir ao cidadão esse direito tão básico.

Eu sempre defendi exatamente isso, mas estava pasmo não com o discernimento, mas com a fé, com a responsabilidade que ele tinha com o conceito de liberdade. Ele vivia intensamente aquilo que acreditava.

Meio titubeante e pego de surpresa com a noção de liberdade daquele homem eu tentei argumentar que ele estava no 1º mundo e eu vinha de um país de 3º mundo, muito diferente em questão de conceitos e, sobretudo, na crença e defesa da liberdade do homem.

Serenamente aquele homem me olhou e aparentando ironia e surpresa me disse: _ Existe apenas um mundo. Este em que vivemos.

O seu mundo é exatamente o mesmo que o meu. A diferença que há entre nós está afeta ao lado do oceano, o hemisfério e a língua que pronunciamos, no mais somos exatamente iguais.

Não dava para responder mais nada. Fiquei quieto, absolutamente mudo, até que nos deixasse no hotel, bem no centro de Madrid.

_ Existe apenas um mundo. Não paro de pensar nisso.

Não tive um maior discernimento do que já tinha, mas aprendi a ter fé naquilo que acredito e nunca, nunca transigir em relação àquilo que me proporciona uma maior estatura. Aquilo que me faz, de fato, um homem do século XXI: a liberdade.

Graças ao motorista de Madrid, pude entender melhor Willian Wallace, o escocês franzino que foi pintado como gigante na luta pela liberdade. Pude sentir melhor o que é ter um “coração valente”.

 



Escrito por João Marcelo às 23h23
[   ] [ envie esta mensagem ]




Saudades de Lisboa.

 

Vou voltar na primavera
E era tudo que eu queria
Levo terra nova daqui
Quero ver o passaredo
Pelos portos de Lisboa
Voa, voa que chego já

Ai se alguém segura o leme
Dessa nave incandescente
Que incendeia minha vida
Que era viajante lenta
Tão faminta da alegria
Hoje é porto de partida

Ah! Vira virou
Meu coração navegador
Ah! Gira girou
Essa galera.

Kleiton e Kledir. 

 

PS: Padrão dos Descobrimentos: Uma homenagem aos heróis portugueses, tendo à frente a imagem de D. Henrique, o navegador.



Escrito por João Marcelo às 17h53
[   ] [ envie esta mensagem ]




O meu pedido de desculpas.

Eu e Fernando Pessoa conversando, em frente ao Café À Brasileira, na rua Garret, no Baixa-Chiado em Lisboa, no momento em que me desculpava pela noite anterior, conforme expliquei no texto abaixo.



Escrito por João Marcelo às 22h45
[   ] [ envie esta mensagem ]




Café À Brasileira

Era o meu primeiro dia em Lisboa e eu estava visivelmente nervoso. Havia cruzado o oceano atlântico para esse encontro e temia a decepção. A decepção decorrente do receio de que eu não tivesse a emoção e sentimento que desejava ter. A insegurança me devorava e logo estaríamos frente a frente.

Saímos do hotel, eu e Simone, e fomos caminhando lentamente até o pé da estátua do Marques de Pombal, o homem que reconstruiu Lisboa após o grande terremoto de 1.755 e entramos no chão, na estação de metrô.

Passamos a catraca e nos sentimos na Babilônia. Pessoas falando português, espanhol, inglês, alemão, além de muitas outras que não pudemos identificar.

Era um exercício interessante que nos servia muito bem para matar o tempo até que o metrô nos deixasse na estação Baixa-Chiado.

Ao sair do vagão que nos conduzia percebi o quanto estávamos fundo. Não imaginava que havíamos decido tanto e o retorno à superfície foi algo realmente demorado.

Na superfície vimos a noite intensa que já se havia formado. A chuva tímida mas persistente caia no largo do Baixa-Chiado e, como estávamos sem proteção para aquele fenômeno climático, corremos para o primeiro restaurante que estava com as suas portas abertas.

Um garçom veio em nossa direção e eu perguntei: Onde é o café “à brasileira”?

_ É aqui mesmo!

Nós estávamos na rua Garret, onde ele costumava ficar. Passava as suas tardes naquele local, conversando e fazendo pequenos trabalhos de contabilidade.

Sentamos e ficamos observando as paredes, as mesas, o balcão. Imaginávamos quais foram as conversas travadas ali e se algum poema havia sido escrito em algum canto e qual seria ele. Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caieiro também estiveram naquele local ou apenas Fernando Pessoa?

Não havia espaço para decepção, todas as emoções que havia imaginado invadiram-me naquele momento. Tentava lembrar alguns poemas de cor, recitava alguns trechos...

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram... 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena...

Abri uma garrafa de um legítimo vinho português, comi um delicioso bacalhau, conversei animadamente com o garçom, um português simpático e muito interessado, olhei para Simone e sentenciei: _ Estou muito feliz!!

Eu sei que isso parecia uma blasfêmia para o meu amigo cujo combustível da alma era a dor.

Ele devia estar me olhando e dizendo da forma mais irônica possível: _ Pobre homem... Imagina que me conhece, mas tolo que é não vê que sou o poeta da dor e não do contentamento, da alegria. Fosse verdadeiramente meu amigo, estaria neste momento buscando toda a angústia da sua existência. Justo ele que tem predileção pelo Primeiro Fausto, onde decomponho toda a dor e dúvida da existência humana.

Eu ouvi o que ele me havia dito, mas não conseguia me conter.

Chegamos à porta do café à brasileira, vimos a entrada da estação do metrô e pusemo-nos a correr novamente para fugir da chuva que ainda insistia em umedecer toda a cidade de Lisboa e, em especial, a rua Garret.

Percebendo que ele estava de mau-humor, deixei de cumprimentá-lo. Achei que o melhor a fazer era esperar que a sua mágoa passasse. Passei direto e sequer um olhar lhe dediquei.

No outro dia, pela tarde, já sem chuva, calmamente sentei ao seu lado e lhe disse, quase sussurrando: _ Ontem eu estava fingindo... Não estava feliz, mas sentia toda a amargura possível dentro do meu ser.

Recebi um sorriso em retorno. Talvez ele estivesse percebendo que eu mentia, mas nisso eu era igual a ele, não na porção poética, mas na porção fingidor. Menti duas vezes, pois mesmo nisso ele era infinitamente melhor que eu.

Pude pelo menos ir embora sorrindo e sem culpa por essas mentiras...

 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração. 

 



Escrito por João Marcelo às 22h34
[   ] [ envie esta mensagem ]




METAMORFOSE

As coisas pequenas me perturbam, mas apenas quando me faltam, pois as coisas pequenas são aquelas que em seu conjunto formam o grande todo que inunda a minha alma e me enche de júbilo.

Eu gosto das coisas pequenas quando estão presentes e que, se acumulando, transbordam o copo dos meus sentimentos e escorrem pela mesa que representa a minha vida. O que sobeja vai entornando e manchando o tampo feito da carne escura do meu coração.

E lá estão as marcas: o seu sorriso doce, o seu olhar tão vivo, a tez da sua pele, o brilho dos seus olhos castanhos, as suas sobrancelhas bem definidas, a forma como você sorri prá mim em retribuição ao meu sorriso, a forma como você sorri quando me vê, a sua roupa, as palavras que você me dirige...

Eu olho novamente as manchas da mesa e não vejo mais as pequenas marcas. Vejo algo gigantesco que impede a visão do meu coração. Fico atônito, pois perdeu a sua simetria assumindo uma perturbadora deformidade e a cor... a cor está diferente, não mais escura, agora brilhante.

É algo desconhecido para mim. A preocupação se transforma em medo e eu me afasto rapidamente desse lugar buscando desesperadamente fugir daquilo está além da minha compreensão e, já um pouco mais distante e não tanto ofuscado pelo brilho e proporções tomadas por essa imensa nódoa eu, definitivamente, não tenho mais coração.

Onde estava meu coração agora vejo você.

 

Por quem foi que me trocaram

Quando estava a olhar pra ti?

Pousa a tua mão na minha

E, sem me olhares, sorri.

 

Sorri do teu pensamento

Porque eu só quero pensar

Que é de mim que ele está feito

É o que me tens para dar

 

Depois aperta-me a mão

E vira os olhos a mim...

Por quem foi que me trocaram

Quando está a olhar-me assim?

 

Fernando Pessoa


 



Escrito por João Marcelo às 20h29
[   ] [ envie esta mensagem ]




O privilégio de ver e viver o presente.

 
A gente não dá o valor devido para certas coisas. Aquela partida em que o Agassi perdeu para o Federer no US Open deste ano foi a melhor final que ele já jogou em toda a sua longa carreira de 20 anos de tênis. Ele nunca foi tão preciso, nunca teve tão boa movimentação de pernas, nunca se defendeu tanto e com tanta eficiência, nunca traçou uma estratégia tão inteligente como a daquela partida... e perdeu.
Ao contrário do que possa parecer, Agassi foi extremamente preciso e alcançou muitas bolas, mas muito mais do que qualquer outro tenista conseguiria alcançar.
A gente não consegue dar o devido valor ao Pelé, eu pelo menos, porque nunca o vi jogar de verdade. Não estou falando de um replay, um VT, mas ficar sentado, vendo o Brasil em situação difícil e, de repente, o rei, com o lance mais genial que você poderia imaginar, altera o curso da história e te faz pensar que a superação, a genialidade e alegria do imponderável é o que mais te encanta no esporte.
Aqueles que viram Pelé jogando o achavam sensacional, mas efetivamente perceberam a sua genialidade quando da sua ausência. Depois dele... horas e horas em um estádio ou na frente de um televisor esperando que o mágico o deixasse atônito, maravilhado, abismado, boquiaberto, mas o mágico nunca mais voltou. Não existiu outro Pelé e a magia não se repetiu... foi a partir de sua ausência que o coroamos.
O Agassi perdeu muitas finais para o Pete Sampras, mas sabia que havia uma estratégia que, se seguida à risca, o levaria à vitória. Ele disse ao final da partida com Federer que o Sampras foi genial e isso não se discute. Ele disse, também, que toda a estratégia imaginável recebe uma resposta contuntende a ainda mais eficiente quando se joga com Federer. É possível ganhar do Federer, ele sentenciou, pois isso já aconteceu três vezes esse ano. Não se sabe, todavia, se é possível ganhar dele numa final, pois ele venceu as últimas 23 que participou. Ao final disse: nunca joguei em toda a minha vida contra um jogador tão genial como o Federer (e ele enfrentou muito gênios nesses anos todos de tênis profissional, aliás, ele próprio um dos maiores gênios desse esporte).
Esse gênio tem apenas 23 anos e já bateu o recorde de vitórias no piso duro. Esse garoto topetudo está a frente do ícone Sampras que dominou o tênis por mais de 10 anos.
Os seus números são impressionantes.
Eu o vejo como o Mike Tison quando tinha 20 anos. O Michael Jordan quando jogava no Chicago Bulls. Os traços de genialidade que o rei possuía, de modo a fazer com que aquele que vê o jogo pense que tudo é muito fácil. É que para essas criaturas o jogo, de fato, é fácil.
E o que é melhor... eu o estou vendo no presente.


Escrito por João Marcelo às 14h34
[   ] [ envie esta mensagem ]




Simone

A noite estava mais fria do que de costume.
A sensação, em razão da temperatura, era muito gostosa. Havia dividido uma garrafa de vinho e uma leve quantidade de álcool me deixava mais solto, nem de longe me turvava a visão e as emoções, apenas uma pequena leveza, daquela que põe um sorriso na boca da gente e que faz com que os olhos se demorem mais em alguns pontos.
Cheguei em frente ao portão e me preparei para descer do carro. Eu precisava abri-lo prá poder entrar. Um carro que vinha na direção oposta, no exato momento em que havia posto o pé esquerdo prá fora, me cegou por breves instantes e eu parei em pé tentando, numa fração de segundos, recuperar a visão. Quando pude então ver, meus olhos estavam voltados para o céu e me foi possível contemplar uma das mais belas luas que já vieram me visitar. As estrelas ao redor pulavam de alegria, dançando num ritmo peculiar e de clara satisfação, tamanha a majestade da dona da noite. O sorriso que já me acompanhava de leve, tomou conta do meu rosto e meus olhos passaram a sorrir também.
Um pequeno momento de constrangimento me possuiu ao imaginar que alguém pudesse estar me vendo naquele êxtase, me tendo por louco...
Como eu poderia explicar que havia o seu rosto, lá no céu, olhando para mim e dizendo que eu estava te fazendo falta?
Será que alguém entenderia que você, naquele momento, ao lado da lua e das estrelas sorria para mim e eu estava apenas retribuindo?
Entrei rápido... Ninguém me entenderia, apenas as estrelas com as quais passei a conversar. E naquele momento, ao ouvir as respostas que me davam, não me sentia mais tão louco.
 
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


Escrito por João Marcelo às 14h52
[   ] [ envie esta mensagem ]




Carol

A gente conversava pelas ondas da net. Só eu e ela. Ela parecia estar de queixo alto, renitente como se o que eu dissesse não valesse ou fosse resultado das minhas idiossincrasias.

Furiosa com seus problemas, não me dava a atenção devida, pelo menos aquela que eu julgava merecedor.

Eu que sempre lhe pareci enorme começava a diminuir em estatura diante dos seus olhos.

Isso me é motivo de preocupação, angustia e medo. Sempre quis ser especial para ela. Ser ouvido. Ser o seu porto seguro, o seu farol quando o mar está bravio nas noites sem luar ou com chuva. Ser a rocha onde ela fixaria os seus alicerces, o socorro rápido e presente nos momentos de atribulação.

_ Você precisa acreditar em mim. Use a minha experiência, aprenda com os meus erros e decepções e alcance uma estatura muito maior que a minha, seja mais feliz.

- Sempre vou estar ao seu lado, nunca vou lhe recusar abrigo. Você sempre poderá se voltar a mim e conseguir socorro.

Ela emitiu sinais... Parece que eu havia começado a tocar o seu coração novamente, o que me fez aproveitar a situação.

- Pense! Continuei. Vai chegar o momento que a sua caminhada será solitária, você vai escolher um rumo para sua vida e não haverá mais espaço para segurar na minha mão.

As cores da sua vida serão aquelas que você inventar e não mais aquelas que eu te der.

_ Pai, isso é profundo, mas é uma pena que eu estou tão ansiosa que não estou conseguindo meditar no que você me diz.

Tudo foi mentira.

Ela me deu atenção desde o início, mas eu nunca consigo ter muita lucidez quando se trata dela. Ela estava me ouvindo, mas eu queria provas disso...

Ela é como o "mel sombrio" de Neruda. Doce, maravilhosa, mas provoca medo e assombro em razão da preocupação sobre o seu futuro. Não a preocupação dela, mas a minha.

Era uma criança... Agora quase uma mulher e toda essa dor é porque neste momento os seus caminhos começam a ser percorridos com as suas próprias pernas. São os seus rastros que marcam o chão. Não se vê mais os meus. O tempo os apagou como o vento consome as marcas postas na areia.

Vá. Caminhe. Seja feliz.

Foi-se o tempo que eu poderia ser o seu caderno. Não posso, mas ainda desejo...

 

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-bá.
Em todos os desenhos coloridos vou estar:
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel.

Sou eu que vou ser seu colega,
Seus problemas ajudar a resolver.
Te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver.
Serei de você confidente fiel,
Se seu pranto molhar meu papel.

Sou eu que vou ser seu amigo,
Vou lhe dar abrigo, se você quiser.
Quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel.

O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado, se lhe dá prazer.
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer.
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.

Toquinho e Vinícius. 

 



Escrito por João Marcelo às 20h03
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, Campo Grande, Centro, Homem, Livros, Música, Esportes
Histórico
  30/07/2006 a 05/08/2006
  02/07/2006 a 08/07/2006
  25/06/2006 a 01/07/2006
  18/06/2006 a 24/06/2006
  11/06/2006 a 17/06/2006
  12/02/2006 a 18/02/2006
  11/12/2005 a 17/12/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  11/09/2005 a 17/09/2005
  21/08/2005 a 27/08/2005
  24/04/2005 a 30/04/2005
  17/04/2005 a 23/04/2005


Outros sites
  NOTURNO 1969
  Jornal de Poesia
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog